Apenas 11% dos homens que já tiveram relacionamento com mulheres admitem ter cometido agressões contra parceiras ou ex-parceiras.

Mais de 50% das Mulheres Brasileiras Relatam Experiências de Violência em Relacionamentos

A Realidade Preocupante da Violência Doméstica no Brasil

Uma pesquisa recente revela um dado alarmante: mais da metade das mulheres brasileiras já sofreu algum tipo de violência cometida por parceiros ou ex-parceiros. Este estudo, realizado pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva, contou com o apoio da Uber e foi divulgado no último dia 29 de abril de 2026. A pesquisa ouviu 1.500 pessoas a partir dos 16 anos de idade, abrangendo todas as regiões do país, com o objetivo de proporcionar um retrato atualizado sobre a percepção da violência doméstica e familiar no Brasil.

Os resultados são impactantes: 54% das mulheres que já se relacionaram com homens afirmam ter vivenciado situações de violência, enquanto apenas 11% dos homens admitem ter sido agressores. Este contraste acentuado destaca a persistência do problema e a necessidade urgente de medidas mais eficazes para proteger as mulheres.

A Lei Maria da Penha: Avanços e Desafios

A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, é um marco no combate à violência doméstica no Brasil. No entanto, mesmo após duas décadas, os desafios para a proteção efetiva das mulheres continuam. Vera Vieira, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, destaca que, em 2025, a Central de Atendimento à Mulher registrou mais de 1 milhão de atendimentos, representando um aumento de 45% em relação ao ano anterior, com 155 mil denúncias de violência, equivalendo a 425 casos por dia.

Apesar das melhorias promovidas pela legislação, a violência de gênero permanece um problema estrutural. A pesquisa indica que a sensação de impunidade é o principal entrave para que as mulheres denunciem casos de violência, mencionado por 56% das entrevistadas. A lentidão da Justiça também é um fator desmotivador, citado por 39% das mulheres.

Percepções e Responsabilidades da Sociedade

A pesquisa revela que 77% das mulheres acreditam que muitos homens ainda não reconhecem certas atitudes como violentas, e 82% afirmam que muitos se omitem diante de situações de violência contra mulheres. A violência psicológica aparece como a mais comum, relatada por 42% das mulheres, seguida pela violência física, que afeta 25% delas.

Embora a Delegacia da Mulher seja o canal de apoio mais conhecido, mencionado por 75% das brasileiras, a sociedade como um todo ainda precisa avançar significativamente na conscientização e ação contra a violência doméstica. Em situações de violência, as mulheres tendem a acionar as autoridades, enquanto os homens preferem intervenção direta, com ou sem uso da força.

O Impacto da Lei na Vida das Mulheres

A Lei Maria da Penha é amplamente reconhecida e aceita, com praticamente toda a população brasileira já tendo ouvido falar dela. No entanto, apenas metade das mulheres (49%) afirma conhecê-la bem. Ainda assim, 82% das brasileiras acreditam que a lei, por si só, não basta para enfrentar o problema de forma eficaz.

Sete em cada dez mulheres reconhecem que a lei tem um impacto real e positivo em suas vidas, e mais da metade se sente mais protegida devido à sua existência. No entanto, a maioria também acredita que, antes da lei, a impunidade e a falta de acolhimento às vítimas eram ainda maiores, com 81% das entrevistadas concordando com essa afirmação.

Desafios e Caminhos para o Futuro

A pesquisa destaca que, apesar do reconhecimento da Lei Maria da Penha, há uma parcela significativa da população que ainda naturaliza comportamentos violentos, principalmente os que envolvem controle e vigilância. Isso é especialmente preocupante, já que a violência psicológica continua sendo a mais frequente.

Para enfrentar efetivamente a violência doméstica, especialistas sugerem uma atuação mais articulada do Estado, além de maior conscientização da sociedade. A disseminação de informações sobre os tipos de violência e os direitos das vítimas é crucial para que a legislação atinja todo o seu potencial protetivo.

É necessário um esforço conjunto para que a lei, junto com outras medidas de proteção e conscientização, consiga reduzir os alarmantes índices de violência contra a mulher no Brasil.

Os dados mostram a Lei Maria da Penha como um mecanismo consolidado e reconhecido pela sociedade como essencial na proteção das mulheres. No entanto, o estudo também acende um alerta: a lei, isoladamente, não é vista como suficiente no enfrentamento à violência doméstica. – Maíra Saruê, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva