Receio é maior entre as mulheres cujo índice chega a 50,5%

Defeitos em calçadas geram medo de quedas entre idosos, revela estudo

Preocupação crescente com a infraestrutura urbana

Cerca de 42% dos idosos que vivem em áreas urbanas no Brasil relatam um receio constante de sofrer quedas devido a problemas estruturais em calçadas, passeios ou vias públicas próximas de suas residências. A situação é ainda mais alarmante entre as mulheres, cujo índice de preocupação chega a 50,5%, em comparação com 31,9% dos homens.

O estudo revela que o medo de quedas varia conforme a idade dos idosos. Entre aqueles com idades entre 60 e 69 anos, 35,2% manifestam preocupação, número que aumenta para 47,1% no grupo etário de 70 a 79 anos. Este percentual alcança expressivos 63,1% entre os idosos com 80 anos ou mais.

Impacto na mobilidade e qualidade de vida

Esses dados alarmantes foram apresentados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) durante a divulgação dos resultados da terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil). Este estudo evidencia que os fatores urbanos e estruturais têm um impacto direto na mobilidade, autonomia e qualidade de vida dos idosos, ressaltando que envelhecer no Brasil envolve desafios complexos que vão além da ausência de doenças.

A coordenadora do Elsi-Brasil, Maria Fernanda Lima-Costa, sublinha a urgência de políticas públicas que promovam a adaptação das cidades para uma população em envelhecimento. Segundo ela, as prioridades devem incluir a melhoria da acessibilidade, segurança viária, mobilidade e um planejamento urbano inclusivo.

Violência e insegurança urbana

Além dos perigos representados pelas calçadas defeituosas, a violência urbana é outro fator que gera insegurança contínua entre a população idosa. O estudo revela que 12,1% dos idosos brasileiros consideram suas vizinhanças muito inseguras, um percentual que representa aproximadamente 3,8 milhões de pessoas vivendo em contextos de medo e vulnerabilidade social.

Esta percepção de insegurança é homogênea entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias. A insegurança vivida afeta diretamente a saúde mental e a interação social dos idosos, reforçando a necessidade de intervenções abrangentes que promovam um ambiente urbano seguro e acolhedor para todas as idades.

Hipertensão e saúde na terceira idade

A hipertensão arterial sistêmica continua a ser uma das condições clínicas mais preocupantes entre os idosos brasileiros. O estudo destaca que 34,4% dos idosos sofrem com níveis de pressão arterial compatíveis com a doença (acima de 14 por 9), o que representa cerca de 11 milhões de pessoas necessitando de acompanhamento médico para prevenir sérios problemas de saúde, como infartos, AVC, insuficiência renal e demência vascular.

A prevalência da hipertensão aumenta com a idade, afetando 31,9% dos idosos entre 60 e 69 anos e 40,1% daqueles com 80 anos ou mais. Não foram observadas diferenças significativas entre homens e mulheres, mas a natureza frequentemente assintomática da doença reforça a importância do rastreamento regular na atenção primária para evitar um subdiagnóstico e possíveis complicações.

Desafios na capacidade funcional e suporte

O relatório também destaca a perda de capacidade funcional como um desafio para os idosos no Brasil. Cerca de 20,4% dos idosos, o que corresponde a aproximadamente 6,5 milhões de pessoas, enfrentam dificuldades para realizar pelo menos uma atividade básica diária, como se vestir, tomar banho, comer, usar o banheiro ou levantar-se da cama.

A limitação funcional é mais prevalente entre as mulheres (23,1%) do que os homens (17%). Com o avanço da idade, esse problema se intensifica, passando de 13,9% entre os idosos de 60 a 69 anos para 44,2% entre aqueles com 80 anos ou mais.

A situação revela uma fragilidade significativa na rede de apoio a essas pessoas, destacando a falta de políticas estruturadas para dar suporte a cuidadores familiares e a necessidade urgente de serviços de cuidado de longa duração e apoio domiciliar.

O papel crucial do SUS e da ESF

Os resultados do estudo reforçam o papel central do Sistema Único de Saúde (SUS) como principal base de cuidados para a população idosa brasileira. Cerca de dois terços dos idosos dependem exclusivamente do SUS para cuidados de saúde. A Estratégia Saúde da Família (ESF) atende 69,2% dos idosos, abrangendo o acompanhamento de 22,2 milhões de pessoas.

Maria Fernanda Lima-Costa, coordenadora do Elsi-Brasil, destaca que tanto o SUS quanto a ESF são fundamentais para a promoção de um envelhecimento saudável, especialmente em um país marcado por desigualdades sociais e econômicas.

Novas ferramentas para o envelhecimento saudável

O novo painel de indicadores lançado pelo Elsi-Brasil promete proporcionar acesso público e detalhado a informações sobre as diversas dimensões do envelhecimento. Esta ferramenta digital foi criada para apoiar gestores públicos, cientistas e profissionais de saúde no monitoramento das demandas da população idosa.

Alinhada à Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) da ONU, a plataforma adota um conceito ampliado de envelhecimento, que inclui autonomia, segurança e bem-estar ambiental como pilares da saúde. O Elsi-Brasil faz parte das principais pesquisas globais sobre o tema e adota metodologias harmonizadas internacionalmente.

“Os dados reforçam evidências de que o SUS e a ESF constituem estruturas essenciais para a promoção do envelhecimento saudável, especialmente em um país marcado por desigualdades sociais e econômicas.”