Alto índice de sintomas depressivos entre idosos urbanos levanta preocupações sobre o ambiente urbano

Cenário urbano desafia saúde mental dos idosos

Nos últimos anos, tem-se observado um crescimento simultâneo da urbanização e do envelhecimento populacional nas cidades brasileiras. Este cenário, embora promissor pelo desenvolvimento urbano, traz consigo desafios significativos para a saúde mental dos idosos. A complexidade desse tema foi abordada em uma pesquisa realizada por Pablo Roccon, professor da Faculdade de Medicina da UFMG, cuja análise focou na percepção dos idosos sobre suas vizinhanças e a relação com os sintomas depressivos.

Baseada nos dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil), a pesquisa de Roccon revelou que cerca de 34% dos idosos entrevistados, com 50 anos ou mais, apresentaram sintomas depressivos. Esta porcentagem foi ainda mais elevada entre as mulheres, chegando a 43,8%, em contraste com 24,5% entre os homens.

Impacto do ambiente urbano na saúde mental

O estudo revelou que idosos que percebem desordem física ou falta de agradabilidade em suas vizinhanças tendem a apresentar sintomas depressivos com mais frequência. A percepção de ruídos excessivos ou a experiência de crimes como furtos e invasões domiciliares também foram associadas a um aumento nos sintomas depressivos, chegando a 31% entre as vítimas de violência.

A análise destacou um impacto ainda maior da insegurança nas mulheres, traduzido em uma prevalência de sintomas depressivos de 12%. Além disso, a falta de coesão social, refletindo uma ausência de senso de comunidade e confiança entre vizinhos, foi outro fator associado à saúde mental, com 26% dos idosos sem essa percepção relatando sintomas depressivos.

Desigualdades sociais e de gênero

O estudo também explorou as desigualdades de gênero, raça e renda nas percepções sobre o ambiente urbano. Mulheres, negros, pardos e idosos de menor renda relataram com maior frequência viver em áreas com problemas de mobilidade, falta de coesão social e insegurança, apontando para condições de vida mais desafiadoras.

Essas condições evidenciam a necessidade urgente de atenção e intervenção por parte do poder público, uma vez que esses grupos já vivem em situações mais vulneráveis. As disparidades socioeconômicas e raciais refletem-se diretamente na saúde mental dos idosos, exigindo políticas públicas inclusivas e equitativas.

Políticas públicas e envelhecimento saudável

Pablo Roccon enfatiza a importância de políticas públicas que integrem o ambiente urbano à promoção de um envelhecimento saudável. Ele destaca iniciativas como a promoção de ‘Cidades amigas dos idosos’, focadas em melhorar as condições físicas e sociais das vizinhanças, promovendo o bem-estar das populações mais velhas.

Essas políticas incluem desde a requalificação urbana com melhorias em calçadas e iluminação até a ampliação de parques e áreas de lazer. A implementação dessas ações pode reduzir a percepção de insegurança e aumentar a coesão social, elementos cruciais para a saúde mental dos idosos.

Pablo Roccon
Pablo Roccon Foto: CCS/Faculdade de Medicina da UFMG

“A gente precisa olhar para a América Latina e produzir evidências a partir do nosso horizonte. Vivemos em um país de muitas desigualdades. A nossa história de ocupação dos espaços urbanos é muito destrutiva, com um impacto gigantesco na vida, principalmente, da população idosa”, afirmou Pablo Roccon.

A busca por uma justiça social urbana

O pesquisador também aborda a importância da justiça social no planejamento urbano, destacando que já existem exemplos bem-sucedidos de intervenções que melhoraram significativamente a qualidade de vida em comunidades vulneráveis.

Ele chama a atenção para a Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030, uma iniciativa global que visa transformar o ambiente urbano em um local que favoreça o envelhecimento saudável e o bem-estar dos idosos. Roccon destaca a necessidade de projetar cidades que não apenas evitem o adoecimento, mas que também promovam ativamente a saúde e a autonomia dos idosos.

Vivemos em um país de muitas desigualdades. A nossa história de ocupação dos espaços urbanos é muito destrutiva, com um impacto gigantesco na vida, principalmente, da população idosa.

Reportagem: Marcos Silva* | redcao1@comunidadeemacao.com.br

Fotos:  CCS/Faculdade de Medicina da UFMG

*Fonte: www.medicina.ufmg.br