Projeto UMA fortalece apoio a mães atípicas em escolas de BH e amplia inclusão

O Projeto UMA, sigla para União de Mães Atípicas, está ampliando a rede de apoio às famílias de estudantes com deficiência nas escolas municipais de Belo Horizonte. Implementada no fim de 2025 e expandida para toda a rede municipal de ensino em 2026, a iniciativa busca criar espaços seguros dentro das instituições de ensino para que mães e responsáveis compartilhem experiências, fortaleçam vínculos com a comunidade escolar e encontrem apoio emocional durante a jornada de cuidado. O projeto é desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação (Smed), em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos.

A proposta parte do reconhecimento de que as famílias, especialmente as mães de estudantes com deficiência, enfrentam desafios diários relacionados ao cuidado, muitas vezes sem uma rede de apoio estruturada. Por isso, o Projeto UMA promove encontros mensais conduzidos por psicólogos, assistentes sociais da Equipe PAS e professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), oferecendo um ambiente de acolhimento, escuta ativa e fortalecimento coletivo.

As atividades acontecem em quase todas as instituições da rede municipal de ensino. Nas unidades com número reduzido de participantes, as rodas de conversa são realizadas em conjunto com escolas próximas, permitindo que mais famílias participem da iniciativa.

Durante os encontros, mães e responsáveis compartilham sentimentos, dificuldades e experiências vividas na rotina com crianças e adolescentes com deficiência. Além da troca de vivências, o projeto incentiva a construção de redes de amizade, apoio comunitário e aproximação entre as famílias e a escola.

Os temas debatidos variam conforme as demandas apresentadas pelos participantes. O foco está no acolhimento das necessidades que surgem espontaneamente durante as conversas.

Segundo o psicólogo Leonardo Santos, da Equipe PAS da Emei Nova Esperança, muitas mães chegam aos encontros carregando sentimentos de culpa, angústia e sobrecarga. O trabalho da equipe consiste em oferecer escuta qualificada e apoio diante das necessidades apresentadas por cada grupo.

Entre as participantes está Lidiane Renata de Amorim, de 44 anos, mãe de Gabriel, de seis anos, estudante do 1º ano da Escola Municipal Jonas Barcellos Corrêa, localizada no Barreiro. Gabriel possui diagnóstico de autismo nível 1 e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Lidiane afirma que receber o diagnóstico representou um momento de alívio, pois passou a compreender melhor as necessidades do filho e conseguiu buscar os direitos garantidos à criança. Antes disso, enfrentou anos de incertezas, noites mal dormidas e situações marcadas pelo julgamento social.

Ela relembra um episódio ocorrido durante uma viagem, quando Gabriel teve uma crise em um aeroporto antes do diagnóstico. Segundo a mãe, uma pessoa demonstrou irritação diante do choro da criança, situação que evidencia os desafios enfrentados por muitas famílias que convivem com a falta de compreensão da sociedade.

A experiência de Lidiane reflete uma realidade compartilhada por diversas mães atípicas, que frequentemente relatam sentimentos de solidão durante o processo de busca por diagnóstico, adaptação e inclusão dos filhos.

De acordo com a gerente de Articulação com a Assistência Social da Smed, Ana Raquel Oliveira Freire Âmbar, a rotina de muitas famílias é dedicada quase integralmente aos cuidados dos estudantes, o que reduz o tempo disponível para o autocuidado e aumenta o desgaste físico e emocional.

Ela destaca que essa responsabilidade ainda recai majoritariamente sobre as mulheres, razão pela qual a iniciativa recebeu o nome de União de Mães Atípicas, embora esteja aberta à participação de todos os familiares.

Além das rodas de conversa, o Projeto UMA desenvolve oficinas de autocuidado e autoestima, atividades voltadas à criação de redes comunitárias de apoio e ações que estimulam o envolvimento das famílias na construção de práticas pedagógicas inclusivas.

Na Emei Nova Esperança, a equipe já planeja ampliar as atividades com passeios ao parque, piqueniques, comemorações de aniversário dos estudantes e encontros voltados à orientação sobre os direitos das famílias.

Na Escola Municipal Jonas Barcellos Corrêa, os profissionais já observam mudanças positivas no relacionamento entre as famílias e a comunidade escolar.

Segundo a assistente social Iris Saraiva, houve fortalecimento do diálogo entre os responsáveis e a instituição de ensino. Para ela, as famílias passaram a compreender que o trabalho conjunto entre escola e responsáveis favorece o desenvolvimento dos estudantes.

Outra participante é Fernanda Aguilar, mãe de Helena, de seis anos, diagnosticada com TDAH e autismo. Ela participou da roda de conversa pela primeira vez em abril, após enfrentar um processo difícil de aceitação do diagnóstico e receio em relação à possibilidade de bullying em uma escola de grande porte.

Fernanda afirma que a existência do projeto dentro da escola trouxe a percepção de que outras famílias enfrentam desafios semelhantes e que ninguém precisa vivenciar essa experiência de forma isolada.

O Projeto UMA faz parte das ações desenvolvidas pela Prefeitura de Belo Horizonte no âmbito da Política Municipal de Cuidados, construída desde 2023 com o objetivo de apoiar tanto quem necessita de cuidados quanto quem exerce essa função.

Segundo a diretora de Políticas de Cuidado, Simone Pegoreti, iniciativas como essa reconhecem a relação de interdependência entre quem cuida e quem é cuidado. Ela destaca que a sobrecarga enfrentada por mães atípicas pode afetar diretamente sua saúde, autonomia e também o desenvolvimento e o bem-estar das crianças e adolescentes.

A diretora ressalta ainda que o cuidado foi historicamente tratado como uma responsabilidade privada das mulheres, muitas vezes exercido de forma solitária e invisível. Nesse contexto, o Projeto UMA contribui para fortalecer redes de apoio entre escola, serviços públicos, famílias e comunidade, valorizando quem dedica parte significativa da vida ao cuidado de outras pessoas.

Ao ampliar espaços permanentes de escuta, acolhimento e troca de experiências dentro das escolas municipais, o Projeto UMA fortalece a participação das famílias na vida escolar e contribui para uma cultura de inclusão. A iniciativa demonstra que o cuidado não deve ser uma responsabilidade individual, mas compartilhada entre instituições públicas, comunidade escolar e famílias, promovendo relações mais próximas, colaborativas e humanizadas no ambiente educacional.